Coluna especial
Postado em: 03/02/2012 às 04h43
TAMANHO DA FONTE  A- A+
Médica de ONG cria polêmica ao divulgar uso de abortivo no Facebook

Não é difícil encontrar na internet dicas de como fazer aborto em casa com o uso de medicamentos. Alguns sites chegam a vender os remédios, prática que é ilegal e pode expor a saúde da mulher a riscos.

A polêmica sobre o assunto veio à tona no início do ano, quando a médica fundadora da ONG Woman on Waves, Rebecca Gomperts, colocou como foto do seu perfil do Facebook um texto que explica passo a passo como usar o misoprostol, remédio para úlcera que provoca contrações uterinas, para levar ao aborto.

A administração da rede social chegou a suspender a página pessoal da médica por dois dias. Ela recebeu a explicação que o conteúdo violava suas diretrizes. Mas o Facebook voltou atrás e enviou um pedido de desculpas à ativista, que vibrou. "As redes sociais devem assegurar o direito à liberdade de informação".

No Brasil, o aborto é considerado crime, exceto em caso de estupro ou de risco de vida materno. O misoprostol (popularmente conhecido como Cytotec) teve a venda proibida no varejo em 2001. De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o uso desse medicamento só deve ser realizado com prescrição médica e o aborto, feito apenas em ambiente hospitalar. A venda é considerada infração sanitária gravíssima e crime hediondo.

A Anvisa tem equipes de fiscalização que rastreiam a internet para procurar e combater crimes - como a venda de misoprostol. "Mesmo assim, há um imenso mercado negro vendendo cada comprimido por R$ 100”, comenta Rita Dardes, que é diretora médica do Instituto Avon e professora afiliada do Departamento de Ginecologia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Em entrevista ao UOL Ciência e Saúde, a ativista da Woman on Waves diz que o misoprostol “pode ser facilmente utilizado pelas mulheres sem a supervisão de profissionais de saúde". Ela alega, também, que as mulheres que necessitam de cuidados por causa de um aborto incompleto podem ser tratadas por qualquer médico.

Gomperts entende que o trabalho de divulgar o uso abortivo pode salvar a vida de várias mulheres. Ela informa que em países da América Latina, África e Ásia, onde as mulheres não têm informações sobre aborto seguro, a interrupção da gravidez tem como resultado a morte de uma em cada 300 mulheres. "São 70 mil mulheres que morrem a cada ano, desnecessariamente. E muitas que sobrevivem sofrem de dor crônica e infertilidade".

"O uso deste medicamento mostrou ser seguro e efetivo em 90% dos casos, se tomado até a nona semana de gravidez. Tem até estudos que comprovam isso", diz a ativista.

Risco de infecção

Já segundo Dardes, os medicamentos abortivos podem, sim, causar complicações – numa porcentagem pequena, mas não desprezível. "A mulher que usa medicamentos abortivos pode ter sangramento excessivo e infecção. O caso, se não tratado, pode culminar em esterilidade - mas esses efeitos adversos não são comuns", diz.

Na opinião da médica, mesmo no caso de países que permitem o aborto, o uso de abortivos por conta própria não é a alternativa mais segura. “Acho complicado colocar toda a responsabilidade de um procedimento nas mãos da mulher. Quando há alguma complicação, a mulher acaba indo a um médico e passa pela resolução do caso num estado de emergência", reitera.

"Não posso esconder das minhas pacientes que existem medicamentos abortivos. Falo a verdade, que eles existem, sim, mas não vou ensinar e nem fazer o aborto", conta a ginecologista Rosiane Mattar, docente do Departamento de Obstetrícia da Universidade Federal de São Paulo.

Mas ela faz uma observação: "A experiência diz que o uso desses medicamentos fez com que a mortalidade materna diminuísse, pois existem muitos médicos que fazem aborto por dinheiro e nem sempre em condições saudáveis e seguras para a mulher”.

E quanto à carga emocional de interromper uma gravidez por conta própria? A ativista alega que a maioria das mulheres não necessita de ajuda psicológica depois do procedimento. "São raros os sentimentos de culpa. Geralmente a resposta emocional mais comum é o alívio", argumenta Gomperts.

Segundo ela, é mais comum as mulheres se sentirem culpadas e envergonhadas em países onde o aborto é ilegal e há um preconceito sobre o tema, como é o caso do Brasil.

"A decisão de abortar acontece de forma isolada. Então, geralmente a paciente chega ao consultório depois que o aborto foi realizado", conta a psicóloga Daniela Pacheco. "A procura acontece geralmente por queixas somáticas, tais como tristeza profunda, baixa libido, medos, dificuldade de estabelecer novos relacionamentos etc".

Realidade clandestina

O aborto no Brasil é uma realidade clandestina. Segundo o Ministério da Saúde, uma em cada sete mulheres brasileiras já fez aborto. A operação, geralmente realizada em clínicas sem controle, pode resultar em mortes.

As complicações e os procedimentos não acabados levam muitas mulheres aos hospitais. A médica e diretora da ONG brasileira Ações Afirmativas em Direito e Saúde (AADS), Leila Adesse, declara que, segundo os dados do Datasus, os abortamentos incompletos são responsáveis por cerca de 230 mil internações por ano só na rede pública.

UOL



 
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