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Portal Cidade Gospel | Redação | Publicado em 07/07/2015

‘A Igreja nunca escondeu o que pensa sobre homossexualidade’

650x375_dom-murilo-krieger-arcebispo-de-salvador-e-primaz-do-brasil_1536441O folheto distribuído no dia 21 de junho pelo pároco Paulo Bezerra, da Igreja Nossa Senhora do Carmo, em Itaquera-SP, ganhou repercussão nacional. Distribuído antes da missa dominical, a Oração dos Fiéis pedia o “enfrentamento à ofensiva homofóbica e fundamentalista presente no Congresso Nacional, além de defender que a própria igreja supere a demonização das relações afetivas”. Nesta entrevista, o arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, dom Murilo Krieger, fala sobre o episódio e esclarece os limites impostos pela Igreja Católica aos próprios sacerdotes.

 
O folheto distribuído pelo pároco Paulo Bezerra foi compartilhado nas redes sociais e provocou reações favoráveis e contrárias. E suscitou uma pergunta: um padre é livre para fazer pregações como essa entre os fiéis?

 

Nós, ministros da igreja, somos chamados a servir à igreja ensinando a sua mensagem, não a nossa. Ora, a mensagem da igreja está clara na Palavra de Deus, no catecismo da Igreja Católica e em inúmeros textos papais ou de conferências episcopais. Antes, pois, de falar ou escrever sobre algum assunto no campo da fé e da moral, devo me perguntar: é isso o que a igreja ensina? É isso que a igreja recebeu de Jesus como verdade a ser ensinada? Posso ter ideias próprias sobre outros assuntos – por exemplo, sobre esporte, política, economia, arte etc. Algumas vezes – e talvez seja esse o caso do referido sacerdote – um ministro da igreja pode ter muito boa vontade e o desejo de fazer o melhor. Na hora da execução de sua ideia, contudo, pode não ser tão feliz. Por isso mesmo, precisamos – falo como alguém que está a serviço do Evangelho – pensar muito antes de nos manifestarmos. Afinal, depois de uma manifestação de um ministro da igreja, ninguém vai dizer: “Aquele padre pensa assim”, mas “a igreja ensina tal coisa”.

 

Há possibilidade de ele ser punido ou censurado?

 

Quem pode dar uma resposta a essa pergunta é o seu bispo diocesano. Provavelmente, sua diocese abriu um inquérito, para que tal sacerdote se explique.

 

Como a Igreja Católica lida com a homossexualidade? É pecado? É uma desobediência a Deus e aos mandamentos divinos? O homossexual deve ser acolhido pela igreja?

 

A igreja nunca escondeu – nem mudou – seu pensamento sobre a homossexualidade e os homossexuais. E, nesse campo, ela segue a prática de Jesus, que foi sempre contra o erro e o pecado e, ao mesmo tempo, sempre misericordioso com quem erra. Para ficar claro, o pensamento da igreja sobre essa questão, reproduzo o que se pode ler no catecismo da Igreja Católica: “Apoiando-se na Sagrada Escritura (cf. Gn 19,1-29; Rm 1,24-27; 1Cor 6,9-10; 1Tm 1,10), a tradição sempre declarou que os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados. São contrários à lei natural. Não procedem de uma complementariedade afetiva e sexual verdadeira. Em caso algum podem ser aprovados” (CIC, nº 2357). Quanto à acolhida pela igreja, o mesmo catecismo, em seguida, completa: “Um número não negligenciável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente enraizadas. Esta inclinação objetivamente desordenada constitui, para a maioria, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á para com eles todo sinal de discriminação injusta” (CIC, 2358).

 

O senhor acredita que o posicionamento e as declarações do papa Francisco têm influenciado essa postura mais aberta dos padres sobre temas polêmicos? Isso pode ser considerado um sinal de novos tempos?

 

Na verdade, o que o papa Francisco tem ensinado é aquilo que ensinava Santo Agostinho, no século V. Esse grande santo afirmava: “Nas coisas essenciais, a unidade; nas acidentais, liberdade; em tudo, caridade”. Nunca, em nenhum momento, o papa Francisco ensinou algo contra os ensinamentos da igreja. Basta ler os documentos que publicou e as homilias que fez. Ele prega, sim, a misericórdia – e essa pregação é essencial para quem quer seguir Jesus Cristo. Se Cristo nos mandou perdoar diariamente quem errou “setenta vezes sete”, precisamos perdoar sempre, acolher com carinho quem pensa diferente de nós e respeitar o comportamento daqueles que têm outra opção de vida.

 

Joá Souza | Ag. A TARDE