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Portal Cidade Gospel | Redação | Publicado em 24/11/2017

Jesus era mais judeu do que os cristãos pensam, afirma erudito da Bíblia

Quando o teólogo Matthias Henze, professor de religião da Universidade de Rice, Texas, visita igrejas e sinagogas na região onde mora para promover um maior diálogo entre o cristianismo e o judaísmo, seu foco é discutir um período histórico específico: o intervalo de quatro a cinco séculos entre o Antigo e o Novo Testamento.

 

“Ele foi negligenciado por vários motivos”, explica Henze, especialista em Antigo Testamento e judaísmo primitivo, com ênfase no período do Segundo Templo. “Tanto os judeus quanto os cristãos via de regra não prestam muita atenção a esse período”, revela.

 

De acordo com Henze, o período entre o século IV a.C. e o primeiro século d.C. são cruciais para entender que pode haver menos diferenças entre as duas religiões do que muitas pessoas possam pensar. Ele insiste que os textos religiosos hebraicos deste período, incluindo os Pergaminhos do Mar Morto, ajudaram a influenciar Jesus, a quem descreve como um judeu que praticava o judaísmo de seu tempo.

 

Este argumento é detalhadamente analisado em seu novo livro: “Como os escritos judeus entre o Antigo e o Novo Testamento nos ajudam a entender Jesus”, ainda inédito no Brasil.

 

O teólogo destaca que os textos religiosos hebreus desse período de intervalo intertestamentário, “colocam Jesus em um contexto. Nós o colocamos no lugar que ele pertence. Não é mais um personagem sozinho, deslocado”.

 

Segundo ele, “somente quando entendemos Jesus como parte de um mundo judaico maior, é que fazemos muito mais justiça ao Novo Testamento”.

 

Jesus não era cristão

 

Nascido na Alemanha, Henze teve uma formação teológica na igreja luterana. Ele foi o responsável pela criação do Departamento de Estudos Judaicos da Rice, que fundou em 2009.

 

“Estou muito confortável em pregar nas igrejas sobre as questões judaicas. As pessoas querem falar sobre o cristianismo, particularmente sobre Jesus. Mas eles também têm um grande desejo de aprender mais sobre as origens do cristianismo, o movimento iniciado por Jesus”, garante.

 

Ele destaca que o cristão em geral sabe pouco sobre o período intertestamentário, por que isso não é descrito na Bíblia. “Foi nessa época que os judeus sentiram-se livres para escrever novos textos, pensar novos pensamentos, desenvolver novas formas literárias de expressão”.

 

Nesse intervalo de cerca de 400 anos os reinos de Israel e Judá foram governados, sucessivamente, pelos persas, gregos, hasmoneanos e romanos. Somente no final do período, argumenta o erudito, que os judeus se abriram para novas ideias, e “o cristianismo emerge … Jesus vem, sendo herdeiro dessas ideias”.

 

“Abrimos o Novo Testamento e vemos Jesus como parte do judaísmo de seus dias”, destaca. “Ele era judeu, nascido em Israel de pais judeus, apresentado ao Templo, criado na religião judaica e morreu judeu”.

 

Para o professor, alguns detalhes fazem toda a diferença. “No Novo Testamento, Jesus vai à sinagoga no sábado. Em Lucas 4 diz que esse era o costume, mas não há sinagogas no Antigo Testamento, a Bíblia hebraica”, assevera.

 

“Jesus era chamado de ‘rabino’ por seus discípulos. Não há rabinos no Tanakh [Antigo Testamento]. Jesus gasta muito do seu tempo discutindo a Torá com os fariseus, como todos os cristãos sabem. Não há fariseus no Tanakh”, pontua.

 

Henze crê que os cristãos negligenciam que Jesus viveu um judaísmo derivado da Bíblia hebraica. Talvez o que mereça mais atenção é a ideia de Jesus como o messias de Israel, de onde surgiu o termo Cristo [termo grego que tem o mesmo sentido]. “Isso foi incorporado a partir da expectativa de um messias no fim dos dias. Mas esse tipo de ideia não é explicada no Tanakh”.

 

O professor Henze diz saber que muitos não concordam com seus argumentos, mas ele diz que gostaria de pedir aos cristãos que respondesse com sinceridade: “Como nossa compreensão de Jesus e do Novo Testamento muda se levarmos a sério que Jesus era judeu?”

 

Embora isso pareça óbvio demais, ele garante que “A maioria dos cristãos acredita que Jesus é exatamente como eles, possui a mesma teologia, e até pertence à mesma denominação”. Contudo, reitera “ele viveu no Israel do primeiro século” e, portanto, os cristãos deveriam se familiarizar mais com o judaísmo, por que essa era a religião praticada por Jesus e outros judeus de seu tempo.

 

A intenção de ter escrito um livro sobre esse “resgate” que considera necessário, enfatiza Henze, é que as pessoas “se abram à necessidade de entender o contexto histórico e religioso” e “leiam o Novo Testamento de maneira mais responsável e informada”.

 

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