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Portal Cidade Gospel | Redação | Publicado em 13/03/2017

Três mil pessoas estão na fila de espera de um cão-guia no Brasil

A qualidade de vida de uma pessoa cega pode mudar completamente quando ela troca as tradicionais bengalas, usadas para auxiliar nas caminhadas pelas ruas, por um cão-guia. Esses animais, que passam por um período de treinamento de um a dois anos, tornam-se os olhos de quem não pode ver. Eles são especialmente treinados para desviar de todo e qualquer obstáculo que possa aparecer no caminho do dono e guiá-los em segurança ao destino desejado.

 

Essa transformação aconteceu na vida de Marina Alonso Guimarães, 30 anos, escrevente no Tribunal de Justiça de São Paulo, cega desde os primeiros dias de vida, quando precisou ficar 47 dias na incubadora e teve a retina queimada pelo excesso de oxigênio. Com 14 anos, ela começou a usar bengala para fazer as locomoções pela capital paulista. Com o tempo, as dificuldades em caminhar rápido por calçadas esburacadas, com muitos obstáculos e apertadas, fez com que ela começasse a busca por um cão-guia. “A bengala é um limitador e me faz andar muito devagar”, afirma.

 

No Brasil, apenas 100 pessoas têm um cão-guia e outras 3 mil estão na fila aguardando a oportunidade de abandonar as bengalas. Marina desistiu de ter um cão-guia brasileiro após esperar sete anos na fila. Frustrada com a longa espera mas sem desistir do propósito de ter mais liberdade para andar, ela resolveu procurar locais de treinamento nos Estados Unidos. E foi de uma pequena escola em Palm Springs, na Califórnia, que ela recebeu a boa notícia de que ganharia o seu cão-guia. O processo todo, desde o preenchimento do formulário no site, até o dia em que foi buscar seu cachorro, levou apenas dez meses.

Adaptação

 

Os gastos com treinamento dos cães-guia são da própria escola que fornece o animal, que recebe ajuda de pessoas física e jurídica para realizar esse processo, além de receberem a doação de cachorros para essa função.

 

Marina passou um mês nos Estados Unidos junto com o treinador do seu cão-guia e, Duke, seu mais novo parceiro de caminhadas. Esse período é essencial para que haja uma adaptação e aprendizado de como se portar com o auxílio do novo amigo. No Brasil, é mais comum que cachorros da raça Labrador e Golden Retriever sejam usados para auxiliar os cegos, mas Marina recebeu um Pastor Alemão de dois anos.

 

O processo de escolha de um cão-guia para o deficiente visual que deseja ter a companhia desse novo amigo é bastante minucioso. É feito um questionário sobre o estado psicológico e financeiro do aplicante. É preciso ter consciência de que ter um cachorro é uma responsabilidade grande e que ele necessita de cuidados constantes. Além disso, todos os custos, incluindo rações e veterinário, são obrigações do novo dono. E os custos são altos, já que se tratam de animais de grande porte e que precisam ser muito bem cuidados para ter uma vida longa e saudável.

 

No caso de Marina, a escola de treinamento levou Duke e um outro cachorro, que também estava no processo, com o intuito de ver como se comportavam durante uma aula de balé, atividade que faz parte da rotina da escrevente. Duke se manteve calmo durante a aula, o que fez com que ganhasse pontos na hora da escolha.

Uma nova vida

 

Em média, os cães-guia trabalham até os dez anos de idade. Depois disso, eles se aposentam. Isso depende do estado de saúde e disposição do animal. Os donos podem optar por manter o cachorro em casa como animal de estimação ou colocá-los para adoção para que possam ter uma nova família e descansar nos últimos anos de vida. Geralmente, as escolas que forneceram o primeiro cão-guia substituem o cachorro aposentado por um novo para que o deficiente visual continue amparado.

 

Os benefícios já começaram logo na volta para casa. Ao embarcar em um voo de Los Angeles para São Paulo, da companhia American Airlines, Marina e seu cão Duke estavam em um assento no corredor central da aeronave. Percebendo a falta de espaço, a tripulação ofereceu a ela e seu companheiro um lugar na primeira-classe, visando, assim, maior conforto para os dois.

 

Para Marina, a qualidade de vida mudou instantaneamente. Ela se sentiu mais segura, confiante e livre para caminhar pelas ruas na companhia do seu novo amigo. “É gostosa a sensação do vento batendo na cara enquanto caminho com o Duke”.

Inclusão

 

O cão-guia é altamente treinado para desviar de todos os obstáculos, e, inclusive, não se distrair com a presença de outros cachorros no caminho. Isso torna o deslocamento pela cidade mais rápido e fácil. Além disso, permite uma maior inclusão social do deficiente visual e diminui a sensação de dó das outras pessoas. Marina diz que “a bengala carrega um estigma, um preconceito. O cão-guia vira o assunto principal, deixa o cego de lado”.

 

Ao chegar em casa e o cão-guia entender que não está mais trabalhando, o arreio e guia são retirados e assim, o animal entende que não está mais trabalhando. Nesta hora, ele vira um animal de estimação como todos os outros. Faz suas necessidades e brinca com o seu dono e todos os brinquedos que estiverem à disposição.

 

Ainda há muita falta de informação sobre a lei que permite a entrada dos cães-guia em qualquer estabelecimento, com exceção de UTIs e centros cirúrgicos. Isso faz com que Marina e outros deficientes visuais passem algumas dificuldades durante a locomoção com os cachorros. “O maior problema é entrar em táxi e Uber, mas também já tentaram me impedir de entrar em supermercado”, afirma.

A Tarde