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Portal Cidade Gospel | Redação | Publicado em 15/01/2019

Suicídios por depressão podem aumentar se Igreja continuar achando que é “demônio”, diz Isabela Mastral

A médica Isabela Mastral, esposa do escritor Daniel Mastral, falou sobre a morte do filho Mikhael, 15 anos, que cometeu suicídio por não suportar a depressão que desenvolveu. O adolescente tirou a própria vida dias antes do Natal de 2018.

 

Mikhael vinha sendo tratado para depressão e síndrome de Borderline, e já havia tentado o suicídio em outras duas ocasiões, o que mobilizou toda a família para que ele tivesse todo o apoio possível, o que não foi suficiente para evitar o desfecho trágico.

 

Isabela compartilhou seus sentimentos sobre o episódio com o portal Universa: “É muito triste ver um filho abatido. Ele teve todo nosso amor, amparo, acolhimento, orações. Teve também suporte psiquiátrico de perto. Não levamos nenhum peso de culpa. Fizemos nosso melhor. Paramos nosso trabalho para nos dedicar em tempo integral a ele. Nunca negamos um abraço. Eu também tive depressão e Borderline. Demorou mais de dez anos para achar o tratamento certo”, disse a médica, de 49 anos.

 

“Mikhael era um jovem bom, respeitador, honesto, puro e, muitas vezes, ingênuo. Acreditava nas pessoas e no amor. Tratava todos como iguais. Passou a se sentir um peso para nós. Ele sabia que estávamos tomando antidepressivos também e achava que a vida dele estava nos matando. Dizia sempre que nos amava”, relatou.

 

A mãe revelou que a situação causou enorme mudança no comportamento do filho: “Antes da doença se manifestar, Mik saía mais, sorria, brincava, estudava, fazia planos. Aí ele mudou. Parecia ter girado uma chave. Caiu seu rendimento escolar, não saía mais do quarto, passou a ter uma perturbação com sua aparência. Estava com anorexia e bulimia. Tampava o seu espelho para não se ver. Sua autoestima estava baixa, e insistimos em estar com ele sempre. Mas era como ver uma luz apagando. Dia a dia. Não se alimentava, não tomava banho”.

 

Até a disposição para a interação nas redes sociais mudou: “Ele se afastou das redes sociais e recebia poucas visitas. Achava que os amigos o abandonaram. Outros, para piorar, ofereceram a ele álcool e drogas para “anestesiar” a dor. E isso piora o quadro, como aconteceu”, contou. “Antes deste episódio, houve uma intoxicação e consegui mantê-lo vivo. Ele ficou internado em UTI por quatro dias, 16 horas em coma profundo”.

 

Essa foi uma das ocasiões em que ela salvou o filho da morte certa, por conta do atendimento rápido e preciso, já que ela é médica. A outra, ocorreu às vésperas de seu suicídio.

 

“No dia 20 de dezembro, se feriu e conseguimos contornar novamente a situação. Consegui novamente evitar que algo pior acontecesse. No dia seguinte, o levamos a uma especialista em transtornos em adolescentes e saímos com a esperança de conseguirmos uma vaga no HC (Hospital das Clínicas de São Paulo) para tratamento. A médica considerou seu estado bom. Ele saiu feliz da consulta, enxergando melhores possibilidades. Nessa mesma sexta-feira, saiu para encontrar umas amigas”, relembrou Isabela, revelando detalhes dos últimos dias de vida do filho.

 

“Sábado, dia 22, tentou novamente se matar e dessa vez não estávamos perto. Naquele mesmo dia, no fim da tarde, a vaga do HC estava à disposição, mas era tarde demais. Ele deixou seu diário. Lá, escreveu tudo o que estava sentindo, desde a primeira tentativa. Escreveu do fundo do poço. Vamos publicar o diário dele na data em que faria 16 anos, 15 de fevereiro. É um relato feito por alguém muito ferido. Nós também vamos apresentar nosso olhar nessa publicação, no site. Somos cristãos e Jesus nos ensina que não é fraqueza expor a dor”, anunciou a mãe, ainda em luto.

 

A motivação do casal Daniel e Isabela Mastral é que a história de seu filho ajude a criar uma maior conscientização no meio evangélico sobre o que é a depressão, responsável por um surto de suicídios entre pastores.

 

“Espero que ajude muitos a enxergar que depressão é uma doença e que essas pessoas recebam mais empatia. Elas precisam de amor. Esperamos também que preconceitos caiam. Não há como acrescentar mais dor e punição a quem está tão ferido. Peço que escolas e amigos não os abandonem, não zombem, não julguem quem está nessa situação. Sejam pacientes, abracem, acolham, visitem. Isso os faz se sentirem importantes. Esgotamos todos os recursos. Fizemos nosso melhor. Infelizmente, enquanto acharem que depressão é “frescura” ou que é “demônio”, os índices podem aumentar. Falar sobre o tema é a melhor maneira. Papais e mamães: não carreguem o fardo da culpa. Um dia, estaremos todos juntos”, finalizou.

 

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